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Escritor e cronista
É das perguntas que uma pessoa solteira mais vezes ouve: por que estás sozinho? Como se a vida só pudesse fazer sentido se for partilhada 24 horas por dia, sete dias por semana, com outra pessoa.
Os 40 trazem-nos consciência da mortalidade. Percebemos que a vida é um milagre. Um deslize, uma distração, e já era. Com sorte, já passou a primeira parte da nossa existência — e os melhores anos.
Vivemos o paradoxo da escolha: nunca tivemos tantas oportunidades para encontrar alguém especial, mas, perante tamanha abundância, bloqueamos e somos incapazes de decidir
A beleza pode até salvar o mundo, mas a beleza de que precisamos transcende a estética e o que é tangível.
Estaremos realmente programados para querer mais quem nos quer menos, para perseguir quem se apresenta como um desafio? Não é à toa que o velho ditado diz “quanto mais me bates, mais gosto de ti”.
Há quem só queira ter um encontro em que não lhe perguntem qual o signo e o ascendente. Será pedir muito?
Os meus primeiros anos de vida foram passados numa casa decrépita que fora habitada por um padre acusado de ali celebrar “culto clandestino”. Estaria mesmo assombrada como temiam os meus pais?
Nunca me passaria pela cabeça perguntar a alguém porque é que não fuma, mas toda a gente acha que tenho de ter uma boa explicação para não tomar bebidas alcoólicas.
Talvez arrumar as coisas à nossa volta nos ajude a lidar com a nossa desarrumação interior. Talvez precisemos de nos livrar do que nos impede de seguir em frente.
Venderam-nos esta patranha de que é má ideia envolvermo-nos com amigos, porque “pode estragar a amizade”. E se a tornar melhor?
Uma paixão não vale nada se não nos acertar como uma chapada na cara. Se não nos revolver as entranhas. Dói-nos mais do que uma cólica renal, mas pode ser a coisa mais bonita do mundo.
Quando Miguel se apaixonou, Maria assustou-se. As suas respostas foram ficando cada vez mais frias e telegráficas, os silêncios mais prolongados, os encontros mais escassos.
Milhares de anos de evolução fizeram pouco pela capacidade de lidarmos com emoções complexas. De todas as invenções que poderíamos pôr ao serviço da Humanidade, esta seria das mais importantes.
Quando puxo para trás a fita do tempo, lá está a minha mãe a escrevinhar um poema num pedaço de papel qualquer. “Poesia de gente humilde”, menospreza-se ela.
Nunca como ali, deitada no banco de trás daquele Mercedes, ela lhe parecera tão bela, tão transparente, tão vulnerável. Queria emoldurá-la. Gastar a vista nela. Pobre coração palerma.
Maria queria ser como Madame Bovary, sentir-se viva e desejada, entregar-se nos braços de outros homens, largar, ainda que por instantes, o peso daquela vida que lhe parecia aquém do que sonhara.
Ter família emigrante é viver com o coração dividido. Um coração partido pode voltar a ser inteiro, mas o tempo oferece pouco alívio para duas metades condenadas a encontrar-se no verão e no Natal.
Naqueles segundos, Miguel fantasiou com ela a correr para os braços dele, os seus olhos a encontrarem-se, profundos e cheios de promessas não cumpridas.
Mais de uma centena de carnívoros de vários países reuniram-se em Madrid para celebrar duas carnes únicas: o boi galego e o porco ibérico Manchado de Jabugo.
Talvez largar seja acarinhar os nossos falhanços, acolher no nosso coração essas pessoas que se cruzam no nosso caminho, perceber que, mesmo quando a dor nos parece insuperável, crescemos com todas essas experiências.
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