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Cronista e escritora
Gosto que tenhamos um entendimento único, mesmo que parta de erros. Como se a correção acarretasse uma forma de perda. Gosto deste léxico imperfeito, do que nasce da relação, antes da norma.
Ninguém se apaixona com moderação. A própria infância é um território de absoluto desrespeito pela moderação. As crianças riem demasiado alto, fazem perguntas demais, choram.
Aprendi cedo que o humor de um homem podia depender de um remate ao poste, e que a esperança se renovava sempre na jornada seguinte.
Quando um Governo diz que decide quando o mau tempo passar, está a dizer que só governa em céu limpo. Um país que só é governado quando está sol não é um país, é um quiosque de venda de gelados.
Hoje há um brilho excessivo dos ecrãs, demasiado finos, sem a menor espessura moral. Em tempos remotos, os ecrãs exigiam respeito. Não se tocava neles de qualquer maneira.
O homem que se levanta toca em algo divino. O gesto de levantar, no sentido puro do termo, é uma infração. É dizer: não sou apenas barro. Sou desejo. Sou força. Sou também resistência.
Precisamos de descanso. O descanso é político: sem ele não há pensamento, sem pensamento não há dissidência. Uma sociedade esgotada aceita qualquer chefe.
Depois de impor ordem no trânsito descontrolado de burqas, é reconfortante ver os dirigentes concentrados naquilo que tira o sono às famílias: a falta de inteligência artificial nas salas de aula.
“Fala de temas menos femininos.” Então aqui estou, com o meu charuto, a reflectir sobre o Mal na humanidade, enquanto alguém toma conta dos meus filhos.
Muitos dos lapsos são hoje, aliás, patrocinados pelo corrector automático, esse vigilante benevolente com vocação satírica. É o nosso superego tecnológico.
São animais estáticos, mas de uma vaidade feroz. Compõem verdadeiras colónias, disputando território. Não caçam, não constroem, não produzem. Apenas exibem plumagem e esperam ser escolhidos.
Ultimamente, vejo que a expressão “Ao final do dia” se pegou como resina de pinheiro no vernáculo do país.
Bastou um vislumbre de Julieta e activou-se o love bombing. Chamou-lhe luz, anjo, constelação emocional. Fez mirroring verbal, affirmations non-stop, jurou amor eterno.
É isto que o Governo escolhe: substituir a linguagem pela imagem, a conversa pela simulação, a construção lenta pela violência fácil. Prefere que aprendam por tentativa, por erro, por trauma.
Envolva tudo numa cobertura espessa de negação colectiva. Se notar cheiro a hipocrisia, disfarce com canela e um painel sobre Empreendedorismo.
A cidade não foi feita para isto. Mas também nunca foi feita para nós. Nem para o cansaço. Há frases que só aparecem depois da curva. Ideias que só se entendem em movimento.
As frases nas redes sociais andam a correr por aí como um cavalo desgovernado com um nome cravado no flanco. E podem ficar agarradas como alcunha no recreio.
Há podcasts sobre crimes, livros, crimes sobre livros, livros sobre crimes, gente que lê livros sobre crimes e comenta os crimes que os outros cometem enquanto lêem livros.
Passei por uma estante em que só se viam as páginas dos livros, a lombada ficava para a parede. A ideia era ser uma estante esteticamente mais bonita, em tons de branco. Achei feio e estúpido.
Já não basta comunicar. Agora, cada frase dita está sujeita a um tribunal imaginário que a julga, desconstrói e analisa até se transformar em algo completamente diferente.
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