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Investigadora, doutorada em Filosofia política e Ética
A ideia de que o futebol embrutece o povo assenta na contestável premissa de que o povo seria revolucionário se não fosse estúpido, e é o futebol que o mantém estúpido.
Em França, a cada três minutos, o tempo de leitura desta crónica, uma criança é vítima de agressão sexual e apenas 3% das denúncias de violação de menores resultam em condenação.
Há algumas semanas, propus que entrassem no dicionário quatro palavras: imaculadofilia, binaromania, hibridofobia e complexofilia. Hoje, adiciono mais uma: maisfobia.
Direitos são conquistas políticas, públicas, visíveis que não se pedem em privado, mas que se exigem e se apoiam em público, fora de quatro paredes.
No dia mais bonito do nosso país, Seguro colocou-se, sem hesitação, do lado de Abril. Mas a forma e o conteúdo do seu discurso ficaram aquém do que estes momentos exigem.
As terapias de conversão da identidade e orientação fascista são contra-indicadas para intervenção individual, mas recomenda-se uma outro tipo de intervenção estrutural.
Portugal foi fundador e beneficiário central do sistema esclavagista e continua a praticar um apagamento persistente dessa história, enquanto a celebra como parte da sua identidade nacional.
As propostas debatidas hoje no Parlamento da direita extrema e da extrema-direita são mais um ataque à existência de pessoas trans e intersexo em Portugal.
A dificuldade em ultrapassar o binarismo, em pensar a simultaneidade e a hibridez não é apenas uma questão de lógica analítica ou argumentativa, tem também repercussões políticas a vários níveis.
Se ao insulto “preto” ainda pode suceder uma desculpa mal-amanhada, ao insulto “macaco” não há volta a dar: é racismo do puro, de qualidade imaculada, branca como neve.
Não, “a emigração” não votou em Ventura. Mais de 90% absteve-se.
Se Montenegro se sentiu à vontade para não se posicionar, foi porque não sentiu a pressão das bases. Este silêncio político não é apenas uma falha individual, é um produto coletivo.
Um dos vídeos recentes de Trump, no qual goza com o Presidente francês, deixa claro que, para ele, Macron, ou qualquer outro governante, é um brinquedo de que se pode apoderar e partir quando quiser.
Porque não uma celebração escolhida por nós, desta coisa incrível que é ter vivido enquanto ser singular, rodeado de quem nos fez, ao mesmo tempo, um ser individual e coletivo.
Quando me sinto submersa pelas politiquices e o desespero se aproxima, corro para a arte, para a astrofísica ou a primatologia, que nos ajudam a descentrarmo-nos do hic et nunc, a ver além.
Muitas são as campanhas, inclusive institucionais, que se concentram no que a mulher deve fazer para se proteger, e não no que os homens devem fazer para não agredir.
Estas direitas choram por causa de monstros debaixo da cama e instrumentalizam esses medos para ganhar votos.
Estamos a fazer com que Portugal seja mais Portugal. Vamos pôr ordem no caos. Estamos a limpar Portugal. Isto não é o Portugal de Abril.
Um partido pode subir a sua votação, mas se isso não lhe permite fazer aquilo para o qual deveria existir, perdeu, por muita atividade autossatisfatória exibida em praça pública.
E olhar para os nossos próprios erros, para as nossas próprias falhas, para as nossas próprias desistências e cobardias?
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