Os leitores são a força e a vida dos jornais. Contamos com o seu apoio, assine.
Os leitores são a força e a vida do PÚBLICO. Obrigado pelo seu apoio.
Realizadora
Um povo oprimido durante décadas produz violência como um corpo doente produz febre — e dizer isto não é abençoar a febre, é recusar fingir que esta veio do nada.
Na passada quarta-feira, bastou o adversário ter a indelicadeza de marcar para se ver uma seleção tão capturada por uma ideia de vitória que se esqueceu de jogar para a obter.
O gesto de rutura vem previsto no regulamento. E assim, o cinema que devia ser fuga e rebelião, passa a vida na procura aflita de originalidade como um garimpeiro famélico, sempre a olhar para trás.
Morin viveu, tudo indica, num estado poético. A tristeza perante a sua morte seria uma má leitura de tudo o que pensou e escreveu — quase uma infidelidade.
Nós temos corpo e temos consciência de o ter, aparentemente uma qualidade única no reino das coisas vivas. Mas essa consciência, que deveria desencadear ação, está avariada — escolhemos o medo.
Neste jogo palerma de falsas simetrias o que mais incomoda é a mitologia do centro: a ideia batida de que o centro é o lugar virtuoso da política, e que o progresso se faz a partir do equilíbrio.
Quando se transforma um agressor em sintoma de uma época, a sua culpa dilui-se numa tendência geral. E as épocas não vão a tribunal. Promovê-lo a sintoma seria poupá-lo da responsabilidade do gesto.
A inteligência artificial não medeia o trabalho como o tear, nem a circulação da informação como a imprensa. Medeia a linguagem, o pensamento, o vínculo — e aprende connosco enquanto a usamos.
Os regimes saudáveis aguentam que se ria deles; os doentes, não. O poder ofende-se com a chacota dos plebeus, e essa é a sua confissão involuntária: sendo incapaz de autoironia, não a perdoa a outros.
A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa.
O que Francisco Rodrigues dos Santos confirma é que quando se olha para o mundo sem medo do que se vai encontrar, o caminho torna-se inevitável. Não por ideologia, mas por evidência.
O capitalismo e a sua precariedade trouxeram-nos este ar: estás sozinho, compete, não há alternativa, acumula, porque o que tens hoje podes perder amanhã.
Destruir é mais fácil do que cuidar. E matar à distância — com drones, com mísseis, com ecrãs que transformam corpos em coordenadas — é mais fácil do que olhar alguém nos olhos e dizer: preciso de ti.
O teatro nasce como tecnologia política inventada pela democracia para se interrogar a si própria. Pedir ao teatro que se reja por uma política conservadora é como pedir à sátira que seja respeitosa.
Durante séculos, o masculino não foi um género — foi a humanidade inteira. As mulheres é que tinham género, da mesma forma que os brancos não tinham raça e os heterossexuais não tinham orientação.
De entre todas as formas de violência militar, o bombardeamento é a mais popular — e a mais cobarde. É a ferocidade exercida à distância, e uma distância que não é apenas geográfica, é moral.
Sair do Spotify é fácil de explicar num jantar. Dá uma frase curta, uma pequena certeza portátil. Mas a facilidade com que se explica deveria ser o primeiro sinal de alerta.
Olhando para a Atenas de Platão, esta mostra-se problemática. É que o filósofo considerava a poetisa Sapho, de Lesbos, a “décima musa”, tal a beleza ardente da sua “poesia do desejo” pelas mulheres.
Quando a vida política se converte em taticismo e gestão de imagem, os políticos perdem acesso às próprias emoções.
Ocorreu um erro aqui, ui ui