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Então pus-me a pensar que talvez metade daquilo que vemos nos outros seja imaginação nossa, uma coisa que inventamos para tornar o mundo mais habitável.
Não tens explicação para a pilha de livros que cai sem que ninguém lhe toque, para a luz que se acende a meio da noite, para a campainha que toca sem ninguém à porta.
Queriam-me viúva clássica, de negro, muda, abatida pela perda, as mãos cruzadas sobre a resignação. E eu quis que ele me visse assim vestida de noiva.
Não sei quantos de vós já viram desaparecer por momentos um filho, um desaparecimento cuja brevidade pedem em silêncio, viram as portas a abrir e a fechar, e a maca a afastar-se.
Hoje, no Dia Mundial do Livro, entrou pela biblioteca um grupo de crianças alvoraçadas, via-se que queriam desatar a correr pelos corredores, mas foram contidas por professoras de meia-idade.
Quando finalmente me recompus, levantei-me, fui tomar banho sozinha, sem pedir auxílio, sem lavar porquinhos, e nunca mais voltei a casa dele.
Mas cá estou, se não por mais nada, pelo menos para vos dizer que nunca deixem alguém que amam passar por esse processo a que chamam terapias de conversão sexual. Posso garantir-vos que são torturas.
Não queria alguém a tomar-lhe o volante, o comando da viagem da sua vida, queria antes um violino, a música, a banda sonora, a beleza.
Falar directamente com o homem parecia-lhe imprudente. Estava do lado da janela e sentia-se emparedada, sem saber com que tipo de criatura estaria a lidar: agressivo ou um voyeur indiscreto?
Há anos que prometo a mim próprio que deixo de roubar, prometo como quem fala sozinho, sem testemunhas, que arranjo um trabalho decente, uma coisa com nome e horas, e abandono esta vida solitária.
Quero lá saber dos outros alunos de outros professores, para mim nem sequer existem.
Dar a mão, imagino eu, talvez resolvesse muitos dos grandes males: sentir a temperatura da mão que segura a nossa, perceber que há vida para além da nossa própria pele.
Houve um dia, e eu não sei porque é que nunca mais me tinha lembrado disto, como é que uma coisa assim se dissolve na cabeça, em que o meu pai entrou em casa com um balde cheio de caranguejos vivos.
Pensava que se podia existir sem coração porque antes doía e agora não — e isso tinha de ser uma coisa boa, não é? —, e agradecia diariamente a bênção da anestesia.
Devias antes ladrar à porta da Assembleia, devias chamar-te Lex, e ficar ali de guarda a coisa nenhuma, a uivar à noite para um país que passa sem te ver.
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