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Não queria alguém a tomar-lhe o volante, o comando da viagem da sua vida, queria antes um violino, a música, a banda sonora, a beleza.
Falar directamente com o homem parecia-lhe imprudente. Estava do lado da janela e sentia-se emparedada, sem saber com que tipo de criatura estaria a lidar: agressivo ou um voyeur indiscreto?
Há anos que prometo a mim próprio que deixo de roubar, prometo como quem fala sozinho, sem testemunhas, que arranjo um trabalho decente, uma coisa com nome e horas, e abandono esta vida solitária.
Quero lá saber dos outros alunos de outros professores, para mim nem sequer existem.
Dar a mão, imagino eu, talvez resolvesse muitos dos grandes males: sentir a temperatura da mão que segura a nossa, perceber que há vida para além da nossa própria pele.
Houve um dia, e eu não sei porque é que nunca mais me tinha lembrado disto, como é que uma coisa assim se dissolve na cabeça, em que o meu pai entrou em casa com um balde cheio de caranguejos vivos.
Pensava que se podia existir sem coração porque antes doía e agora não — e isso tinha de ser uma coisa boa, não é? —, e agradecia diariamente a bênção da anestesia.
Devias antes ladrar à porta da Assembleia, devias chamar-te Lex, e ficar ali de guarda a coisa nenhuma, a uivar à noite para um país que passa sem te ver.
Não gritei. As crianças nem sempre sabem gritar a tempo. Houve apenas confusão, movimento, uma urgência muda, e depois silêncio.
Ali, entre as ondas, era sempre Natal. E dava para ver a família inteira, um por um, ampliados pela água.
Não sei lutar contra os ecrãs que os sugam para um não-lugar onde deixam de ser pessoas, onde não são certamente os meus filhos: são utilizadores, sombras que partilham a casa comigo.
E não é só o tamanho das minhas saias que importa; o importante é a altura dos meus sonhos, que ele também quer que mirrem a grande velocidade.
A Daniela — é assim que se chama a rapariga que trabalha no piso de cima — podia ser modelo e não entendo por que gasta os dias e a beleza na empresa mais aborrecida do mundo.
E sei, sei com a certeza amarga dos presságios, que nos restam poucas horas de pele quente, que em breve o Pedro, o meu homem — se é que um homem pode ser de alguém — me deixará.
Lembrei-me das vezes em que resisti, lutei, retaliei, zangado até ao esgotamento, quando talvez bastasse deixar-me ir, permitir que a trela de um cão satisfeito e faminto de mundo me conduzisse.
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