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Professor Catedrático da FCSH da Universidade Nova de Lisboa
Ao substituir a clareza da transmissão de conteúdos pela complexidade burocrática da avaliação de competências, o Ministério da Educação não está a modernizar o ensino e o currículo nacional.
Estamos muito longe de poder garantir os professores de que o sistema público de educação precisa nos próximos anos nos grupos mais carenciados e nas zonas do país mais afectadas.
A educação, que inclui a ciência e a cultura, é o tema que Portugal nunca soube ou quis discutir profundamente. Nas últimas eleições legislativas, comunicação social e actores políticos ignoraram-na.
Conclui-se facilmente que ambos jornalistas e políticos não reconhecem à educação, à ciência e à cultura o valor que têm na construção de um país moderno.
Vários problemas técnicos persistem de decreto em decreto, de legislador em legislador. Algum dia acertaremos… no decreto e no legislador.
Há uma percepção crescente de que as humanidades são menos relevantes para enfrentar desafios urgentes, como as alterações climáticas ou a inovação tecnológica, e reduz-se o seu financiamento.
Se não alterarmos o actual quadro curricular e o sistema de avaliação pedagógica que praticamos nas nossas escolas desde 2016, o ensino superior terá de começar a ser menos superior e mais inferior.
O problema não nasceu este ano, não é “temporário”, e há muito que tarda um pensamento político-estratégico à altura da sua complexidade.
Falta no discurso do ministro da Educação uma posição enérgica para resolver este problema e aceitar que é necessário fazer um grande investimento na formação de professores para os próximos anos.
Aferir o nível de aprendizagem dos alunos em áreas estratégicas para o seu desenvolvimento e fornecer informações sobre o seu progresso escolar devia ser uma prerrogativa exclusiva do professor.
Tarda uma estratégia nacional para resolver o principal problema das nossas escolas: a falta de professores.
O cenário de catástrofe da escola pública que se aproxima parece ser menos importante para debate do que os cenários de governação depois de 10 de Março.
O legislador tinha apenas uma preocupação: poder usar como propaganda política o regresso dos estágios remunerados. E assim o tem feito, e o povo acredita e aplaude, sem conhecer sequer o modelo.
Um conjunto de decisões infelizes encurralaram a disciplina num grau de experimentação de que poucos terão consciência. É preciso recuar ao início do século para compreender como chegámos até aqui.
Imaginem que o Governo, face à idêntica falta de médicos, decretava que, para atrair mais candidatos à profissão e à sua formação prévia, era suficiente um ano e meio de um curso de Medicina.
A mais recente medida do nosso (meu) Presidente da República sobre o diploma das carreiras dos professores legitima o documento, mas deita por terra todo o humanismo demonstrado na posição inicial.
Não parece ser prioritário que um verdadeiro programa para mais professores seja uma aposta séria do Governo. Tudo aponta para um facilitismo desproporcionado no acesso à profissão docente.
Em Portugal, estamos a formar 1500 docentes por ano, mas precisávamos de formar pelo menos 3500 para evitar o nível catastrófico previsto para 2030, quando se prevê que faltem 50 mil professores.
Tem-se falado dos mecanismos de recrutamento nas negociações, e esquece-se que, se não tivermos novos professores, é irrelevante o mecanismo a aprovar. O cenário para os próximos anos é catastrófico.
O cansaço que nasce disto tudo não é metafísico nem poético, é um sintoma de exaustão que empurra os professores para um espaço fora de si mesmos. Os professores portugueses mereciam outro país.
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