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Filósofo, professor da Universidade da Beira Interior
Estar no mundo não pode significar estar e não estar.
Cuidar da Terra deveria querer dizer habitar as suas crostas, ficar com elas, ter a paciência de viver sobre uma cicatriz sem a reabrir incessantemente.
Dentro de água, sem contornos nítidos, o corpo inteiro ressoa o que ouve. Talvez por isso a água tenha sido desde cedo matéria de encantamento.
É nos joelhos que sentimos primeiro o frio e a humidade. Articulam o dentro e o fora do corpo. E também da mente que o anima.
A experiência do eterno que aflora nos gestos mais quotidianos tem de ser familiar. São acenos, sorrisos, olhares. Em todos, o corpo é graça, e na graça efémera algo de eterno transborda.
Ateus ou crentes, vivemos demasiado presos à ideia de salvação, seja espiritual, ambiental ou política, cercados por formas de redenção que secularizam uma certa ideia de religião.
O viajante regressa para lá do seu interesse, trazendo consigo lugares que lhe entraram no corpo, quase uma pele nova.
Há um truque que qualquer míope aprende em criança. Se semicerrar os olhos verá o longe com um pouco mais de nitidez, não o longe inteiro, mas algum detalhe. Chama-se efeito estenopeico.
De uma certa perspetiva, comer é a ação menos identitária que podemos realizar.
A chuva faz um contínuo miudinho entre o céu e a terra, o dentro e o fora, o passado e a sua memória.
Godelieve Meersschaert, co-fundadora da associação Moinho da Juventude, no bairro da Cova da Moura (Amadora), pratica um bendito modo de refugiar há quase meio século.
Do chão à mão que o abre, o pão tem o sabor da condição humana.
O mundo deixou de ter sono e nós arrastamo-nos entre a insónia, a dopamina dos ecrãs e os soporíferos.
Vive-se hoje demasiado de costas viradas, a tentar passar uns diante dos outros como se não tivéssemos costas.
Urge levantar os olhos dos ecrãs, sair para a rua, falar de viva voz, não recear tocar e ser tocado, não ter vergonha de sentir vergonha.
O mercado é um lugar milenar de troca, curiosidade e contaminação, conhecimento do estranho e de desejo.
Quando se fala de véus, chapéus e óculos escuros que enlevam um rosto o que se pode estar a garantir é a liberdade de atravessar e estar no espaço público reservadamente.
A marquise foi o fenómeno dos apartamentos dos anos 80. E as rotundas foram as marquises das ruas nos anos 90.
Diante de um planeta danificado e ferido, a aceitação incondicional deveria significar um acolhimento radical do mundo e dos seus problemas, ficar com os “nãos”.
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